segunda-feira, 23 de junho de 2008

A GRIPE


A polícia Federal não tava brincando quando disse que a operação Iceberg era apenas a ponta de um esquema milionário de desvio de dinheiro público. Cinco meses após a primeira operação, os federas deflagraram a operação Influenza que, mais uma vez, abalou a crème de la crème da sociedade peixeira. Ontem, 24 pessoas, entre elas empresários, policiais e funcionários públicos e foram parar atrás das grades, acusados de estelionato, formação de quadrilha, falsidade ideológica, crime contra o sistema financeiro, tributário e contra a administração pública.

A PF ainda não sabe há quanto tempo o esquema tava montado, mas desde agosto do ano passado investiga a bronca, que ganhou força depois da operação Iceberg. O rabo foi descoberto através da prisão do ex-superintendente do porto peixeiro, Wilson Rebelo, no dia 29 de janeiro. Depois de tanto fuçar na papelada apreendida no porto e na casa de Rebelo, os policiais encontraram indícios do envolvimento dele em dois esquemas fraudulentos.
Primeiro a participação dele na fraude na licitação de uma agência de publicidade. Wilson e Anderson Jorge Saldanha, o Fiu, assessor de comunicação do porto de Itajaí, deram um jeitinho de fazer a agência Carllier, da qual Fiu seria sócio, vencer a licitação e ser responsável pela verba publicitária do porto.
"O Wilson e o Fiu fizeram a empresa do Fiu ganhar a licitação, para o Fiu controlar o dinheiro", explicou o delegado Airton Takada. Através da agência vários serviços que nunca saíram do papel eram pagos pelo porto. A Carllier também é acusada de superfaturar os serviços que nunca existiram.
A grana desviada através da agência ia direto pro bolso dos integrantes da quadrilha, que tavam enriquecendo. A polícia não sabe o tamanho do rombo, mas estima-se que seja de milhões. Para realizar os crimes, os acusados corrompiam servidores públicos, principalmente nos portos de São Francisco do Sul e de Itajaí, por meio de pagamento de propina.
Prisão não serviu de lição
O esquema continuou mesmo com a prisão do ex-superintende do porto. Normélio Weber, secretário de comunicação da prefa peixeira, de acordo com a polícia, teria assumido o serviço sujo enquanto Wilson amargava a prisão na operação Iceberg na carceragem da PF. Aliado a Fiu Saldanha, que era o caixa da bronca, eles teriam desviado dindim a mando de Wilson, que ficava por debaixo do pano só dando as cartas.
Segundo a PF, a vice-prefeita Eliane Rebello, e o prefeito de Itajaí Volnei Morastoni, não foram alvo das investigações. Eliane chegou a ficar à frente do porto por alguns meses, mas não teria participado da falcatrua.

A união faz a grana aumentar
A investigação apurou ainda que com a grana entrando solta nas contas de Wilson, o golpe teria chamado a atenção do empresário Francisco Carlos Ramos, o Chico, que é o sócio majoritário da Agrenco, empresa de exportação e importação de grãos com sede em São Paulo. O empresário, que já teria um esquema de lavagem de dindim em sua empresa, teria se aliado a Rebelo.

Normélio e Fiu não teriam participação na jogada da soja. Nesta última, além de Chico e Wilson, fariam parte da bronca o delegado da Receita Federal, Jackson Aurli Corbari, o ex-delegado da PF e chefe da segurança do porto, Miguel Murad Varela, e os fiscais da Cidasc.
Na Agrenco, o dinheiro vinha do superfaturamento de notas e de outros trambiques. Numa das maracutaias, a quadrilha desviou 1,4 milhões de dólares da empresa, através de uma nota fiscal falsa de venda de soja emitida por Elói Marchetti.

O dinheiro foi depositado na conta de uma secretária da Agrenco, que faturou U$ 60 mil e depois distribuiu a bufunfa pros envolvidos – um deles era Antônio Iafelice, que também era sócio da empresa. A grana que saía da empresa entrava nos cofres dos golpistas através de falsos empréstimos. Laranjas ou mutantes faziam esses falsos negócios e ficavam com a grana.
Outra técnica usada pela renca era o transporte de mercadoria através do porto de Itajaí. Segundo o delegado da PF, Roberto Cordeiro, os espertinhos faziam a lavagem do dinheiro por meio de exportação, pagando por contêineres que nada transportavam.
A organização não era fraca e tinha ramificações em Itajaí, Balneário Camboriú, Blumenau, São Francisco do Sul e Florianópolis, nos estados do Paraná, São Paulo, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Bahia. O negócio também era internacional, envolvia países como Argentina, Holanda, Reino Unido, Malta, Itália, Noruega, Bermudas, França e Cingapura, entre outros. A meta da quadrilha, de acordo com informações da PF, era arrecadar U$ 4 bilhões este ano.
Delegados e barnabés na parada
A quadrilha era tão bem estruturada que contava com colaboradores dentro da Cidasc e Receita Federal. Os infiltrados tinham livre acesso dentro das instituições e faziam das tripas coração para manter o jogo sujo da organização.
Os espiões recebiam uma grana para avisar e impedir ações que pudessem acabar com o esquema. O delegado aposentado da PF e chefe da segurança do porto peixeiro, Miguel Murad Varela, era responsável por obter informações privilegiadas dentro da polícia. Ele alertava quando rolava alguma investigação que pudesse chegar ao esquema.
O mesmo acontecia com o chefe da delegacia da Receita Federal em Itajaí, Jackson Aluir Corbari, que também foi enjaulado por facilitar as ações ilegais do esquema. Roberto Luiz Marcon, diretor da Cidasc, e outros fiscais ajudavam na lavagem de dinheiro por meio do comércio de soja. Eles atestavam a qualidade da soja, que só existia no papel.
A morte da galinha dos ovos de ouro
A operação recebeu o nome de Influenza depois que a PF ouviu uma conversa telefônica do ex-superintendente. Na gravação, Wilson Rebelo chamava o porto de "a galinha dos ovos de ouro". Tudo porque ele e seus comparsas tavam vivendo na mordomia através do dindim desviado. No grampo, a PF ouviu Wilson dizer que distribuía ovos de ouro para quem contribuísse com a falcatrua. Para ironizar, os federas deram o nome da operação de Influenza, que é o vírus que mata a galinha e causou a epidemia da gripe aviária.

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