Quando a crítica é ao governo municipal, em vez de Esperidião falam na Ângela, ou simplesmente na “Tia”.
A coisa se repete como um mantra (uma invocação religiosa hindu, geralmente em sânscrito, que usa a repetição de sons para afastar o mal ou atrair o bem), sem levar em conta o pequeno detalhe essencial: nunca afirmei que o governo LHS era melhor ou pior que o de seus antecessores.
A minha crítica, em geral, não é feita em base comparativa. A comparação decorrente dela é feita por conta e risco do leitor. Infelizmente não era colunista político antes de 2005 e portanto não posso pedir que leiam o que escrevi sobre governos anteriores. Resta-me esperar que ainda esteja escrevendo sobre política quando e se mudar o governo.
Aí, as queixas virão dos fãs do novo governante. E as contribuições com as mazelas, dos fãs do governante desalojado. É assim que ocorre quando o colunista não tem compromissos com este ou aquele: interessa observar os feitos e malfeitos de quem detém o poder. Não importa se é A, B ou C. Assim que toma posse, passa a merecer atenção redobrada. Instala-se sobre sua pessoa e suas circunstâncias uma lente de aumento, um macroscópio e um alarme de BNJ.
O alarme é muito útil para chamar a atenção quando, por querer ou sem querer, o governante da vez coloca a bunda (ou de algum de seus pares) na janela. BNJ é igual à bola quicando. Não dá pra deixar passar. Nem pra fazer de conta que a gente não viu.
Portanto, consolem-se: a gente só critica o LHS porque ele é o governador. Fosse ele um ex-governador, não receberia tanta atenção. E decidam-se: vocês preferem estar no governo (e ter que tomar cuidado com a BNJ e as telhas de vidro), ou ficar fora do governo, pra poder atirar pedras despreocupadamente?
O DISCO ARRANHADO
Disco arranhado, no sentido que eu quero dar, é coisa muito antiga. Do tempo do vinil. A agulha ficava presa e pulava, repetindo sempre a mesma frase... a mesma frase... a mesma frase... a mesma frase... Até que alguém gritasse “muda o disco!” ou fosse lá parar com a cantilena.
Os discos ópticos (CD e DVD) quando arranham nem sempre produzem o mesmo efeito. Às vezes até repetem um mesmo trecho, mas podem acontecer vários desarranjos, inclusive nada: só para, silenciosamente, de tocar.
Então, além da turma do mantra (“no tempo do Amin, ou do FHC, ou da Tia, era igual”) tem a turma do disco arranhado: volta e meia repete que eu sou deste ou daquele partido. Desde criancinha.
Quando recomendo alguma nota interessante que li no ex-blog do Vieirão, por exemplo, sempre tem alguém que escreve uma cartinha: “sabia que eras do PP, nunca me enganastes”.
Quando comento o Coturno Noturno, aparece na caixa postal que “já não consegues disfarçar tua filiação ao DEM”.
Ou seja, eles não admitem que o governo (municipal, estadual ou federal) possa cometer algum erro, equívoco ou abrigar algum mal-intencionado. Acreditam que quem faz qualquer avaliação negativa ou simplesmente comenta um deslize o faz, certamente, porque pertence a algum partido ou facção que perdeu a eleição e que está tentando derrubar “ilegalmente” o governante bonzinho, justo e sábio.
Muda o disco, ô!
CHORO INTERNACIONAL
O interessante é que tanto o mantra quanto o disco arranhado não são exclusividades brasileiras. São fenômenos universais. Veja a recente briga do primeiro-ministro francês com a para-estatal Agencia France Presse (AFP) e, por tabela, com a imprensa, a quem responsabiliza pela queda da sua popularidade.
Em todo lugar onde existe imprensa livre, existem governantes tentando atribuir às críticas (e não aos erros criticados) seus problemas de popularidade. E muitos falam exatamente a mesma coisa que já ouvimos por aqui: “a imprensa está fazendo o papel da oposição”.
No Brasil do presidente Lula, no entanto, há uma curiosa particularidade: governo e o partido do governo reclamam da imprensa “golpista”, mas nunca nesse país o presidente esteve tão bem nas pesquisas. Incensado pelos banqueiros, amado pelos mais pobres e agora adorado pelos agropecuaristas da Amazônia, Lula não depende do que dizem os jornais, mas vive incomodado com as críticas.
Vá entender...
Cezar Valente
Nenhum comentário:
Postar um comentário