Passei aquela noite saboreando a minha pizza e assistindo filme (acho que era X-man 3), quando no intervalo resolvo me exercitar com o meu esporte preferido mudar sistematicamente de canal, quando passo pela TV Brasil Esperança vejo o cabeçudinho do Denisio a qual estranhei estar ele ali no sábado à noite e resolvi averiguar. No momento ele entrevistava o Burgonovo da defesa civil e durante a reportagem não me ficou claro se haveria enchente ou não e em nenhum momento escutei qualquer alerta para a população sair de casa e se preparar para a enchente.
Com este assunto indigesto nem acabei de assistir meu filme e fiquei olhando ora a janela ora aquele cabeçudinho fazendo muvuca na TV, às duas da manhã me venci pelo cansaço e resolvi ir dormir.
Acordei com uns sons na rua e um barulho estranho aos meus ouvidos, antes de olhar na janela resolvo ir até a cozinha olhar o relógio do micro ondas, eram cinco horas, resolvi averiguar aqueles sons, quando olho pela janela tomei um susto, a água já havia tomado conta de toda a rua, desci desesperado para tirar meu carro da garagem, passando um grande trabalho para tirá-lo sem deixar morrer, subi rapidamente e acordei minha esposa e minha filha avisando para elas se prepararem que eu iria levá-las para a casa do meu sogro, neste tempo ajudei alguns vizinhos a levantarem seus pertences.
Quando desci para tirar o carro à água gelada já cobria os pés, após ajudar os vizinhos, por volta das sete horas quando fui levar minha esposa e filha à água já se aproximava do joelho.
Deixei-as na minha sogra e fui ajudar meu pai, porém o carro já não descia mais a rua Imbituba, via nas pessoas uma angustia nos olhos, umas clamando aos céus dizendo: não, de novo não. Outras afirmando que depois dessa irão embora e nunca mais vão voltar, enfim um misto de pânico e revolta.
Levantamos algumas coisas durante a manhã e quando terminamos a água já estava acima da cintura, no meio da tarde arrumamos uma batera a fim de levantar mais algumas coisas na casa do meu pai e ajudar quem nós pudéssemos pelo caminho.
Durante a tarde ao chegar próximo ao mini - preço do São Judas me assustei a água já tomava conta de todas as ruas próximas, inclusive da rua Indaial, entramos na rua Imbituba e o vento não nos deixava sairmos do lugar, ficando impaciente resolvi entrar na água e puxar eu mesmo o bote. Neste momento tive a dimensão na tragédia, rosto desesperados, pessoas desanimadas e muitas famílias ansiosas por uma ajuda.
Muitos foram os pedidos de socorro mais a correnteza não nos permitia muita coisa em um barco sem motor e com remos não apropriados para a embarcação, porém na medida do possível pude ajudar a levantar algumas motos em cima de mesas, tirar idosos das suas casas, crianças fugirem sem ter de entrar na água.
Certamente foi um momento que me senti o mais fraco dos heróis, o mais impotente dos bravos, pois muito pouco ou quase nada se podia fazer, a não ser gritar com os bombeiros pedindo ajuda e pedir calma a população assustada.
Neste dia ainda salvamos as TVs e o computador da casa do meu pai que colocamos na batera assim como algumas pessoas que conseguimos auxiliar, o bairro Dom Bosco havia virado um cenário de tragédia com muitos heróis voluntários escondidos sobre a roupa do anonimato.
Ao chegar a noite resolvi ir para a casa da minha sogra ficar com minha mulher e filha no piso superior já que a casa na parte baixa já se encontrava com mais de um metro de água, foi uma noite terrível e silenciosa onde a luz se apagou, a televisão emudeceu, apenas podia-se ver a ira daquelas águas atingindo o sonho e o suor das pessoas, eu não tinha mais a bateira á disposição ficando apenas parado na impotência da minha pessoa, restando ouvir o bom e velho radinho de pilha.
Na segunda-feira não consegui um bote nem outro meio de locomoção para e sair às ruas, passei o dia todo trancado em casa, onde pude ter a experiência de um pássaro que através dos frisos da gaiola pode ver liberdade mais jamis alcançá-la.
Na terça-feira dia 27/11 a chuva deu uma aliviada e eu não me contive e resolvi sair de casa, mesmo sob protestos, com água no peito resolvo enfrentar as ruas e ver o que acontecia com o meu bairro que tantas vezes passei de bicicleta, a pé, de carro, quantas noites fiquei conversando nas esquinas, quantas vezes ao meio dia esperei a namorada para um beijo, agora este cenário virou um imenso rio, aquele rio que outrora parecia morto, pulsa numa explosão de protesto.
Ao chegar a rua Indaial pude ver meu carro estacionado no pátio da igreja e me assusto com os relatos das pessoas abrigadas no salão sobre os menores que naquela noite aproveitaram a desgraça para arrombar os carros, escutei a historia de tiros e tentativas de assaltos as casas e o arrombamento do mini-preço, infelizmente pude presenciar alguns jovens rindo da baderna e da destruição, cujo objetivo em nenhum momento foi conseguir comida, apenas a baderna pela baderna.
Consegui um caiaque emprestado e sai pelas ruas do São Judas e Dom Bosco, indo na casa de conhecidos e desconhecidos anotando pedidos de socorro e escutando alguns que apenas queriam conversar e mais uma vez pude notar o heroísmo dos desconhecidos.
Cheguei em casa com os braços cansados e com o rosto queimado, mais a felicidade de ter feito alguma coisa, qualquer coisa, antes de me recolher resolvo ir até o São João a pé, já que de carro não passava, para comprar pão e ver a nova realidade da cidade e pude constatar que esta se transformara numa terra sem lei, daquelas visto em filmes e nos noticiários sobre os paises em guerra civil, nem nas madrugadas de carnaval quando eu e os meus amigos voltávamos da vila a pé senti aquele calafrio.
Quando chego próximo ao asilo vejo uma grande quantidade de pessoas com carinhos de compras descendo a rua vinda do São Vicente, muitos rindo se achando mais espertos que os outros, a grande maioria aparecia com carrinhos cheios de cerveja e bebidas, até um carrinho cheio de pneus de carro desciam aquela avenida, assim como descia a honra e moral da população da nossa cidade, uns riam e comemoravam outros como eu horrorizados e revoltados com essas atitudes estúpidas e incorretas.
No São João próximo ao Corujão uma outra cena me assustou um grupo de jovens e crianças, inflamados por moças e mães tentam arrombar aquele estabelecimento e a PM ameaçava a usar a força se esses meliantes insistissem com o arrombamento, como a coisa começou a esquentar resolvi sair de perto para não sobrar pra mim. Mais a frente encontro um mercadinho onde tomei um outro susto com um outro tipo de assalto, o assalto dos preços parecia que havia uma inflação avassaladora em menos de 24 hrs.
Voltei para casa assustado rezando para as águas baixarem e a vida voltar a normalidade, pois aquela não era mais a minha Itajaí.
Graças a Deus na quarta-feira a águas lentamente começam a abaixar e aproveitando a águas da enchente que tanto mal fez, agora servia para limpar as casas e apagar os pesadelos vividos.
Porém por engano pensei que o pior tinha ido embora com as águas, todavia ao ver os moveis destruídos, a luta e os sonhos das pessoas arrancados pelo lodo, vi que o estrago ainda demorará a ser apagado e a normalidade voltar em nossa cidade, a nossa linda e limpa Itajaí virou um imenso mangue, cheio de lixo e lodo, cheio de sonhos e trabalhos destruídos, pessoas que perderam tudo, mas não perderam a esperança de lutar.
Hoje Itajaí é uma cidade hoje cinza e triste, mais como a fênix ressurgirá das cinzas e ficará novamente linda e bela, com seu povo hospitaleiro e trabalhador reerguendo a cidade que amamos e deixando novamente a cidade florida e feliz.
Certamente irá demorar para esquecermos esta tragédia poderá levar o tempo que for, mas nunca esqueceremos a nossa Itajaí de belezas naturais infinitas e o berço da economia da nossa Santa e Bela Catarina.
Que nesta Natal possamos aproveitar este sentimento de solidariedade que águas nos trouxeram para perdoamos os nossos inimigos, desfazer os mal entendidos e vivenciarmos um Santo natal ao lado das pessoas que amamos agradecendo a Deus pelas nossas vidas e de nossos familiares.
Dentro em breve iremos nos lembrar desta enchente e dizer aos nossos filhos que mais uma vez Itajaí superou as adversidades e poderemos cantarolar orgulhosos nas ruas e nas praças, no campo e na cidade;
Bem-vindo à Terra de sol e marDas praias e belas sereiasDa brisa suave e fagueiraQue envolvem as brancas areias.
Bem-vindo à Terra Feliz
Dos sonhos e linda canções
Dos rios e das ruas floridas
Que encantam os seus corações
Eduardo de Camargo Assis
www.eduardodecamargoassis.spaces.live.com
Nenhum comentário:
Postar um comentário