quinta-feira, 11 de setembro de 2008

ELEIÇÕES 2008


IVAN NAATZ QUE FAZ DOBRADINHA COM ÂNGELO RONCÁGLIO FALA AO JORNAL SANTA






"Sou bairrista mesmo"
Entrevista: Ivan Naatz (PV)



O candidato do PV, Ivan Naatz, gosta do confronto. Na entrevista concedida ao Santa dia 22 de agosto, partiu para o combate apresentando propostas, mas também alfinetando adversários. Como não poderia deixar de ser, elegeu o meio ambiente como plataforma.

O candidato falou de sua atuação na Assembléia Legislativa, criticou a baixa representatividade do Vale do Itajaí no parlamento, esclareceu o programa de governo do PV e derreteu-se em elogios ao candidato a vice Angelo Roncáglio (PPS). Sobre a ousadia de disputar a prefeitura, quando uma cadeira na Câmara de Vereadores estaria mais ao alcance, respondeu:

- Acho que a vereança seria frustrante pra mim.

Giovana - Uma pesquisa do Instituto Mapa, encomendada pelo Santa, mostrou que a saúde é a grande preocupação do eleitorado. O que o senhor fará para acabar com a falta de médicos?

Ivan Naatz - Nós temos conversado com muitos médicos. A gente já sabia, tinha essa informação por pesquisas particulares que tivemos acesso. A saúde é o maior gargalo do município. E três problemas são crônicos nessa administração. O primeiro diz respeito à gerência política. O nosso corpo clínico entende que devíamos ter uma gerência técnica. O segundo ponto, segundo os médicos, diz respeito à falta de uma estrutura de trabalho. Ou não tem caneta ou não tem papel. Manda fazer o exame e o exame demora tanto que, quando ele vem, não sabe mais nem o que o cara tinha. Então, é uma frustração da classe médica. E o terceiro ponto é relativo ao salário. É o maior gargalo. O médico contratado da rede inicia a carreira com R$ 1,4 mil para trabalhar lá no final da Velha, lá no final da Vila Itoupava, entende? Não tem ninguém que agüenta.

Valther - Vinte horas dá meio expediente.

Naatz - Meio expediente. É que na verdade não fazem 20 horas, fazem aquele atendimento de 10 pessoas, né?

Valther - E caem fora..

Naatz - Caem fora. O cara ganha R$ 1,4 mil. No primeiro mês ele vai, no segundo mês ele acha que aquilo é um absurdo e nos 45 dias ele não vai mais. Resultado: falta médico no posto A. Chega lá no posto B: sobrecarregado. O médico, sobrecarregado, pega atestado, não vem mais. E assim é uma cadeia. O secretário sempre tá filiado a um partido, a um grupo, a um time...

Valther - No seu governo não estará...

Naatz - Olha, nosso desejo é que a administração fosse técnica. Até porque nós não temos compromisso com nenhuma legenda partidária, nenhum grupo de médicos, nenhuma entidade.

Valther - O problema salarial também não seria uma dificuldade para trazer um técnico?

Naatz - Não, porque o secretário ganha mais. O técnico seria secretário e secretário ganha R$ 7 mil, que também é pouco.

Francisco - Mas hoje não tem uma médica na secretaria?

Naatz - Tem uma médica, mas é filiada a um partido político e tem militância partidária. Esse é o problema. E depois, só pra concluir a questão da saúde, é uma vergonha Blumenau não ter hospital regional. Isso é uma vergonha para a classe política desse município. Nós pagamos a conta de Timbó, de Indaial, de Pomerode, de Benedito Novo, de Gaspar, de Ilhota...

Valther - E o hospital universitário, que tá lá?

Naatz - O universitário ficou um ano e meio com um aparelho de mamografia parado, dentro de uma caixa. A Furb quer fazer, não há incentivo para a construção. Nossa representação política, e eu fui deputado agora, é zero. Somos zero em representação política tanto na Assembléia quanto nos órgão federais. Não temos força política nenhuma. Quando se junta aquela bancada do Sul do Estado, ninguém segura. Vocês conhecem o Juarez Ponticelli, do PP, e o (Manoel) Motta, do PMDB. Não se falam. É uma representação por quebra de decoro por mês, um contra o outro. Agora, se for pra fazer uma ponte lá em Urussanga...

Maicon - Eles se abraçam.

Giovana - Por que o Vale não consegue ter isso também? Teve 12 deputados recentemente...

Naatz - Primeiro, pela questão de suplência. Tu sabes que o período é muito curto. Não dá pra você nem respirar. É até uma injustiça essa colocação. Não tem como, por mais que você tente fazer. E depois, quem manda na bancada é o governo.

Clóvis - Qual é a lição que o senhor traz dessa breve passagem pela Assembléia?

Naatz - Tive orgulho. Eu queria fazer uma crítica a vocês aqui do Santa. Eu consegui trazer para o Hospital Santa Isabel R$ 1,98 milhão. Então, eu tenho orgulho de ter esse documento comigo. Lamentavelmente, nós não vimos nenhuma vírgula desse documento no jornal. E se eu mandar pra cá, vocês não vão publicar porque agora é época de campanha. Não tem como.

Giovana - Qual projeto marcou esse período na Assembléia?

Naatz - O projeto que regulamenta as licitações do Estado em questões ambientais. Hoje, quando você contrata uma empresa, ela pode ter sido condenada por crime ambiental.

Valther - É uma espécie de ficha suja da...

Naatz - Da questão ambiental. É a licitação ambiental. Nós proibimos a utilização de madeira de mogno, de qualquer produto na lista de extinção.

Francisco - Aproveitando que entraste nessa seara ambiental. Recentemente publiquei na coluna um impasse que existe entre Ministério Público/Ibama e prefeitura. Ou seja, a prefeitura dá licença para construções em uma área de...

Naatz - Não condiz com o Código das Águas.

Francisco - Exatamente. Há um impasse com a legislação municipal...

Naatz - Quando cheguei na Assembléia, era Semana do Dia Mundial do Meio Ambiente. Tinha a notícia de que o governador iria apresentar o Código Ambiental do Estado naquela semana. Lamentavelmente, eu saí da Assembléia e o governador não apresentou ainda. Seria a oportunidade ímpar de corrigir alguns equívocos. Mas nós precisamos saber se o governo do Estado, se o município, tem legitimidade para enfrentar a lei federal. Agora, que é preciso refletir sobre umas ações... não dá mais, um município como Blumenau, (construir a) 100 metros do rio, inviabilizaria.

Francisco - Mas há abusos também, né?

Naatz - Sim.

Valther - Mas o que tá feito, tá feito...

Naatz - Eu desci o Ribeirão Garcia de caiaque duas vezes. Eu recomendo para qualquer um. Do lado da captação de água da Samae, a água vem praticamente limpa, pura para consumir. Cem metros pra frente nós temos o primeiro foco de esgoto. Dali, a cada 100 metros tem outro. E isso me deixa muito, muito triste. Agora, não é só isso. Descendo o Ribeirão Garcia de caiaque, eu pude deparar com paredões dentro da água. Paredões. O rio bate na parede da casa do sujeito, no muro, faz aquele contorno, como se fosse...

Valther - Intromissão no leito natural.

Naatz - Isso, não é uma, nem duas, nem três. São várias. Dentro do rio. Onde tá o poder de polícia?

Valther - Mas tanto o município quanto qualquer lei autoriza a derrubada.

Naatz - Tem que meter o trator e derrubar. Ah, se eu fosse prefeito! Vocês sabem, eu sou meio maluco, eu mando derrubar. (risos) Então, e olha só a experiência! Você encontra marreca dágua, marrequinha, garça. Você encontra muito peixe, muita tilápia.Então são coisas que nós precisamos corrigir no Código Ambiental. O cidadão construiu em cima do rio, tem que arrebentar o muro dele. Sabe por quê? Para termos o que a gente chama de punição pedagógica. Hoje o cara constrói em cima de ribeirão, vai morar dentro e não acontece nada.

Clóvis - Você tem uma candidatura que é um páreo duríssimo, né? Por outro lado, se você saísse a vereador teria uma eleição praticamente garantida. Por que essa opção?

Naatz - Primeiro, porque meu escritório de advocacia tem uma clientela muito boa, eu ganho bastante dinheiro lá. Acho que a vereança seria frustrante pra mim. Eu não conseguiria seguir adiante do nível da nossa Câmara de Vereadores. Eu não quero ser mais do que ninguém, mas não é novidade que a nossa Câmara de Vereadores não é muito...

Clóvis - Vais continuar com o escritório de advocacia até o fim da campanha?

Naatz - Com certeza. Cheguei atrasado aqui porque eu tava numa audiência na Justiça do Trabalho.

Francisco - E se for eleito?

Naatz - Aí vou ter que me afastar.

Clóvis - Porque prefeito ganha um pouquinho mais, né?

Naatz - Não é nem pela questão financeira. É que daí teria outra missão. Uma nova carreira.

Clóvis - Como está a parceria com o vice Angelo Roncáglio? É um vereador que não é do seu partido...

Naatz - Muito boa, eu acho que juntou a fome com a vontade de comer. Vocês não fazem idéia como a gente combina. Duas pessoas que nunca se falaram, mas a gente combina. Eu queria que vocês o conhecessem, é um cara fantástico, uma inteligência extraordinária. A gente é panela e tampa. Ele é guerreiro, bocudo, eu também sou, então... (risos)

Francisco - Um endossa o outro. (risos)

Naatz - Eu tenho que segurar ele, ele tem que me segurar. Nossa campanha é de casa em casa. Nossa campanha não é de ir na Rua XV.

Maicon - Eu lembro de uma entrevista que você deu há quatro anos. Você disse: "quando eu entrar na prefeitura vai sair gente voando pela janela". Qual sua visão sobre cargos comissionados?

Naatz - No meu governo nós vamos enxugar a máquina. O jornal de vocês noticiou recentemente: "governo abre três secretarias para acomodar PMDB". Eu tenho tudo, tenho arquivado dos últimos 12 anos, todas as manchetes de política. Eu tenho o desejo de privatizar ao máximo aquilo que só consome recursos. O Aeroporto Quero-Quero será privatizado no nosso governo. Não sei se vou vender, se vou entregar para iniciativa privada...

Clóvis - Para explorar.

Naatz - Para explorar, que seria talvez o mais racional. Uma coisa é certa: ou ampliamos ou fechamos. Não tem mais essa história de ficar 20 anos esperando o que vão fazer. Nós não temos mais o vôo das 6h30min em Navegantes porque não tem demanda. Desde quando vão abrir o Quero-Quero aqui e vai ter demanda? Empresário manda o funcionário onde é mais barato. Como é que eu vou deixar de ir por R$ 180 em Navegantes para ir por R$ 400 aqui? Segundo ponto: Vila Germânica. O desejo nosso: entregar a exploração da Vila Germânica para a iniciativa privada. Eu acho que essa história de fazer turismo em Blumenau não é verdadeira. Os dois grandes hotéis - eu tenho amigos meus que trabalham lá - estão com as ocupações ferradas. A Vila Germânica se transformou numa feira de eventos. Vocês vêem turistas de feira caminhando na Rua XV fazendo compras? Eu não vejo. Esse é o turista que não gasta nada. Então entrega a exploração da Vila Germânica para a iniciativa privada, com o compromisso de manter a Oktoberfest, Festitália... é compromisso nosso entregar para a iniciativa privada o que for necessário, inclusive no projeto da Creche Social. Eu vou entregar a construção de creches para a iniciativa privada, para que ela construa creches e venda vagas para o município. O nosso desejo é o seguinte: se os azuis vencerem...

Valther - É tudo por cor.

Naatz - Se os azuis vencerem, os vermelhos estarão contra, certo? Se no governo dos vermelhos os vermelhos faziam, os azuis eram contra. No nosso governo, nós vamos fazer azul, vermelho, amarelo, cor-de-rosa e verde.

Clóvis - É um arco-íris...

Cao - Um governo gay! (risos)

Naatz - O nosso desejo é fazer um governo de coalizão.

Fabrício - Eu vejo que você fala muito na propaganda de blumenauense nascido aqui e tal... de fato é uma bênção. Mas o que um blumenauense adotado, como eu, deve pensar?

Naatz - Tu és inteligente. Sabes que o recado não é pra ti.

Fabrício - Eu sei, mas tem muita gente que pode não entender.

Naatz - A gente está passando um recado pra eles. O Vilson Kleinübing veio aqui, nos usou e foi embora, com dois anos de governo. Décio Lima foi embora pra Itajaí. Esses dias encontrei o Victor Fernando Sasse. Faz 16 anos que foi prefeito dessa cidade, tá aí, dando explicação. Se foi bom prefeito, se não, tá aí. A gente encontra ele. A gente encontra o Dalto (dos Reis) para dar explicação. Quando eu digo que nós temos que valorizar os filhos daqui, eu quero dizer que vamos ficar aqui para dar explicação. Essas pessoas têm nos usado, têm nos abandonado. Vinte e três anos e a Via Expressa não vai ser concluída. Quero dizer que eles não têm compromisso conosco. Então, é coisa de bairrista mesmo.

Francisco - Qual a postura da administração municipal no seu comando com relação a incentivos fiscais?

Naatz - Blumenau concedeu isenção fiscal para os amigos do poder numa quantia absurda. Nós vamos inverter a política de isenção fiscal. Nós não vamos fazer como fazem hoje, que é dar atenção aos grandes e excluir os pequenos.

Valther - Aí inclui o microcrédito?

Naatz - Microcrédito, o cooperativismo, que é a coisa mais moderna. Inclusive a Ampe vai abrir sua cooperativa. Já comprei duas cotas.

Maicon - No aspecto ideológico: desde a falência das utopias de esquerda, houve uma abertura da relação capital-trabalho, dando abertura a outras áreas, como feminismo, o meio ambiente. Mas eu percebo um certo radicalismo. Eu senti no teu discurso um certo radicalismo. Ou tô enganado?

Naatz - Você está enganado. Não se pode confundir Partido Verde com ONG. Não pode achar que o Partido Verde é o S.O.S. Mata Atlântica, WWF, Greenpace. Tanto que os ambientalistas convidados a fazer parte do nosso projeto político não se engajam. O partido entende que é preciso equilibrar. Para cada agressão, uma ação. Se é preciso romper com uma área de interesse ambiental, ela tem que ser compensada. Talvez esse paradigma o partido precise quebrar.

Francisco - Qual é a visão que o senhor tem do meio cultural?

Naatz - O artista é um cara muito complexo. (risos)

Valther - Nós temos dois aqui (aponta Cao e Maicon), eles são muito complexos. (risos)

Naatz - Querido, o cara solda duas porcas, uma em cima da outra, e quer viver daquilo! (risos) Não dá pra entender.

Francisco - Sendo o artista uma pessoa complicada, como lidar com isso?

Naatz - Precisamos aprender (risos). Primeiro, ensinar as pessoas a valorizar a cultura. Os chilenos aprenderam a valorizar todo o tipo de cultura... arte, livro, música, teatro. Os argentinos, a mesma coisa.

Clóvis - Eu quero fazer uma pergunta: tu não tens preocupação com essa voz rouca, tu cuidas da voz?

Naatz - Tenho um negócio aqui na garganta que tá crescendo a cada ano. Tenho acompanhado... por enquanto não tem problema, mas vou tirar. Problema é que, para tirar, precisa ficar 30 dias sem falar.

Maicon - Um livro que você leu e que você indicaria...

Naatz - Eu gosto muito de História. Eu terminei de ler agora 1808 (de Laurentino Gomes). Quem quiser conhecer o Brasil tem que ler esse livro. Parece grande, assustador, mas é fantástico. Ele vai explicar porque que a gente não tem saneamento básico, por exemplo. E gosto também de ler essas questões de auto-ajuda, como convencer os outros, como ser simpático.

Valther - Muito prático nessa época. (risos)

Naatz - Como ganhar uma eleição... (risos) quem tem que ganhar a eleição são eles. Por isso eu tô tranqüilo. Para terminar: vamos apresentar um projeto que vai ser a continuação da Beira-Rio, só que numa pista de caminhada e de bicicleta, entre o rio e a calçada.

Francisco - Mas não vai degradar a mata ciliar?

Naatz - Nós vamos fazer um projeto integrado... mata, caminhada, pista de bicicleta. Trazer um teleférico de onde é a Unimed até o Museu da Água. Lá, vamos ceder o espaço para construir um restaurante típico. Precisamos demolir o Edifício América e fazer uma ponte de escoamento.


Extraído do Jornal de Santa Catarina

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