quinta-feira, 3 de julho de 2008

RÉU CONFESSO

"Nós damos corda e ele se enforca"
Secretário de Articulação admite negociação com empresário, mas como estratégia para mostrar extorsão

O secretário de Articulação do governo do Estado, Ivo Carminati (foto), confirmou ontem que discutiu valores na conversa que manteve no dia 19 de dezembro de 2007 com Nei Silva. No entanto, assegurou que apenas forjou uma negociação para servir como instrução das medidas policiais e judiciais que viriam a ser tomadas no futuro pelo governo contra o dono da revista "Metrópole"."Quando eu vi que ele estava constrangendo o governo e a minha assessoria chamei o assunto a mim. Foi tratado de valores na audiência, mas não havia negociação nenhuma, estava apenas dando corda para ele se enforcar", explicou.


O secretário também reconheceu que Nei tratou da suposta dívida com seu chefe de gabinete e assessores. "Esse assunto é um caso de polícia, assim foi tratado e assim será tratado, com toda a transparência por parte do governo do Estado", disse Carminati.


O diretor de imprensa do governo do Estado, José Augusto Gayoso, classificou de "assunto requentado" as gravações entregues à Justiça. Gayoso afirmou que o governador Luiz Henrique não se manifestaria sobre o assunto. Também negou que o secretário Derly Anunciação (Comunicação) e o ex-presidente da Codesc, Içuriti Pereira, tenham autorizado qualquer projeto com a "Metrópole".


A Notícia - Qual é a relação do governo com Nei Silva? Como ele chegou ao seu gabinete?Ivo Carminati - Esse rapaz solicitou audiência e eu o atendi duas vezes, depois de saber qual era o assunto. Ele pressionava a equipe no gabinete, constrangia. E aí comecei a conversar com ele, entendendo que essa conversa seria negociação para pagamento. Na verdade, essa conversação visava ver que nível de constrangimento e extorsão ele estava praticando. Em um determinado momento, na segunda vez, depois de conversar com Armando (Hess), que também recebia constante pressão dele, orientamos que o Armando fizesse um boletim de ocorrência e entregasse o caso à policia para que ela pudesse, daí em diante, orientar o procedimento, o que acabou com a prisão.


AN - O senhor não imaginou que ele poderia estar gravando a conversa?


Carminati - Haviam me falado, sim, que ele grava conversas.


AN - Não teve medo de que as conversas pudessem dar a entender que estava negociando?Carminati - Não, não. Nenhum medo. A gente trabalha na área criminal há 25 anos. As conversas tinham que dar a ele o sentimento de que era uma negociação conforme ele desejava. Nós damos corda e ele se enforca, esse era o objetivo e a estratégia desenvolvida.


AN - Em um trecho da conversa o senhor diz "a informação que nós temos é que já te pagamos R$ 350 mil" e Silva responde dizendo que foram R$ 120 mil. Que dinheiro é esse, de onde veio?Carminati - O volume, a quantidade de dinheiro é uma invenção dele. Não sei de onde ele tirou isso. Agora, eu tinha que entrar no espírito dele. Isso foi desenvolvido e deu exatamente como planejava. Seja R$ 300 mil, R$ 650 mil, ou R$ 1,4 milhão, como ele diz no final, a importância era irrelevante.


AN - O senhor inventou um número, então?


Carminati - É, o importante era desenvolver.


AN - O senhor chega a afirmar que reconhece o trabalho feito pela revista, mas que ele não vale R$ 500 mil. É isso?


Carminati - Essa afirmação foi depois que eu tomei conhecimento de que ele, espertamente, envolveu alguns secretários regionais para receber auxílio privado através do pleito dos regionais. Eu não sei quanto ele levantou nessas doações dos privados com os (secretários) regionais, mas não era posição ou orientação do governo. Ele não tem crédito nenhum com o governo porque não prestou nenhum trabalho obedecendo às normas da legalidade, que é o processo licitatório. Por isso, não reconhecemos qualquer débito.


AN - O senhor recebeu Nei Silva e "deu corda" como o senhor disse, mesmo sabendo que a conversa poderia estar sendo gravada. Isso demonstra que o governo estava realmente preocupado com essa questão?


Carminati - Não, não. Nenhuma preocupação. O fato é que esse rapaz incomodava todo mundo. O governo não pode ficar sujeito a constrangimento, não pode ser achacado. Eu utilizei a minha experiência de advogado e a condição de secretário e demos um basta a essa situação.
A história


CAPÍTULO 1
NA SURDINA
Em maio, o dono da revista "Metrópole", Nei Silva, começa a distribuir a alguns jornalistas cópias de um livro chamado "A Descentralização no Banco dos Réus" (foto), em que revelaria os bastidores de um suposto acordo com o governo estadual para divulgar o processo de descentralização administrativa, antes da campanha eleitoral de 2006. As negociações envolveriam membros do governo, prefeituras, empresários e o próprio governador Luiz Henrique.
CAPÍTULO 2
OS COMENTÁRIOS
O livro assinado pelo empresário traz 60 reproduções de documentos, 25 diálogos reproduzidos e 15 fotos. Esse conteúdo começa a ser citado em colunas e blogs de cobertura política.
CAPÍTULO 3
O FLAGRANTE

Nei Silva é preso em flagrante por agentes da Diretoria Estadual de Investigações Criminais (Deic) no dia 2 de junho (foto). Ele é acusado de tentar extorquir R$ 1,4 milhão do governo do Estado para não divulgar o livro. Ele marcou encontro com o ex-secretário de Planejamento Armando Hess, que lhe entregaria R$ 40 mil. Antes de encontrar Silva, o ex-secretário avisou a polícia - que planejou o flagrante.
CAPÍTULO 4
A JUSTIFICATIVA
O empresário nega a tentativa de extorsão e afirma que estava cobrando uma dívida relativa ao trabalho de divulgação feito pela revista "Metrópole" - que incluiu a colocação de outdoors e a realização de pesquisas. O acordo inicial seria de R$ 500 mil, mas Silva afirma que a dívida estaria em R$ 1,4 milhão por conta de juros e lucros cessantes. Ele afirma ter como provar o negócio, mas diz que só apresentaria os documentos e gravações diretamente à Justiça.
CAPÍTULO 5
A RESPOSTA

O governo nega o acordo com Nei Silva e afirma que a história não passa de um "caso de polícia". Nei Silva estaria tentando receber os R$ 1,4 milhão para não divulgar na imprensa local e nacional as falsas denúncias.
CAPÍTULO 6
A INGENUIDADE

Em entrevista, Armando Hess reconhece ter sido procurado por Nei Silva com o projeto de divulgação da descentralização e diz ter sido "ingênuo". Afirma que cessou as negociações depois que o projeto foi vetado pela Secom. Diz também ter dado R$ 40 mil ao empresário por ele ter dito que estava em dificuldades financeiras.
CAPÍTULO 7
INDICIAMENTO E DENÚNCIA

O delegado Renato Hendges pede o indiciamento de Silva por extorsão. Ele afirma não ter ouvido as gravações e fotos apreendidos com o empresário na prisão em flagrante, mas revela uma carta escrita por Nei Silva, negando todas as denúncias do livro. Ela seria assinada em troca do dinheiro pedido aos membros do governo.
CAPÍTULO 8
NAS MÃOS DA JUSTIÇA

Ontem, Nei Silva prestou o primeiro depoimento ao juiz Lepoldo
Brüggemann, da 3ª Vara Criminal de Florianópolis. O crime de extorsão prevê pena de quatro a 10 anos de prisão.
CAPÍTULO 9
REFLEXOS EM BRASÍLIA
Duas edições da revista "Metrópole" fazem parte da ação que tramita no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pedindo a cassação do mandato do governador Luiz Henrique por uso indevido dos meios de comunicação. Integrantes da coligação Salve Santa Catarina, que apoiou o candidato derrotado em 2006 Esperidião Amin (PP), tentam fazer os ministros tomarem conhecimento do teor do livro escrito por Nei Silva.

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